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O ceifeiro

Andava assim… à esmo, para ver se consegui aplacar a cenestesia que o dominava. Nada. Parecia explodir. Ora mergulhava no mais profundo mal estar, achava até que suas entranhas haviam se enrodilhado em sua mente e apertavam a tal ponto, que o crânio parecia querer estourar, lançando excrementos e miolos para todo lado.

Apressava o passo, segurando a cabeça, seguia trôpego, indo de encontro às paredes, enchendo-se de escoriações e equimoses. A duração de tal suplício era irregular, precisava desviar o pensamento de coisas triviais, para fixar a mente em seu desejo maior. Começava aí o reverso, era dominado por forte euforia que o renovava, desentortando o corpo, levantando a cabeça, partia rápido em busca de seu objetivo.

Vagava por entre ruas e vielas parecendo cão farejador, buscava olhando em lugares sombrios. Virou uma esquina na rua que desemboca no rio. Casais de namorados, contando lorotas sob a lua. Apertou o passo. Queria se livrar dos risinhos e das frases tolas, que seriam esquecidas ao primeiro jato de esperma. Detestava casais de namorados.

A chuva resolveu descer de forma abrupta ou talvez em meio à suas preocupações, não ouviu os trovões nem se apercebeu do vento que abria caminho para a cortina d'água. Ansioso e molhado. Não era um estado dos mais desejáveis. Encostou-se em uma porta, embaixo da marquise. Esfregava as mãos e sentia que o mal estar já estava chegando, precisava distrair a mente, ocupá-la com algo novo ou acabaria jogado na sargeta, estrebuchando como um pobre diabo.

Forçava para formar em sua mente um quadro bem nítido, cheio de labaredas, rochas incandecentes, brilho do fogo que desejava lamber seu corpo. Mais alto, mais alto… Ai que agonia… Cada vez imaginava as chamas subindo mais e mais, até que o quadro ficasse cheio dos tons entre amarelo, preto, vermelho e alaranjado. Cores do fogo mergulhado num salão rochoso. O dançar das chamas, um bailado mágico que deixava sua mente em paz enquanto admirava a mudança de cores nas chamas flamejantes.

Pobre diabo, fazia o impossível para manter vivo o quadro que criava, uma ilha de labaredas que o separava da dor cheia de espasmos, da euforia alucinada entre os dois estados cenestésicos em que era mergulhado alternadamente.

Tanto o estado de mal estar geral quanto o de bem estar cobravam seu preço e ele tinha que pagar. Mantinha-se hirto, com os olhos fechados, o queixo apontando para o alto, forçando o pescoço. Não era posição das mais cômodas, mas era a que menos o distrairia de suas chamas benditas que ajudavam a mantê-lo sob controle até que aparecesse alguem…
Precisava de um ser humano com urgência, mas aquela chuva não estava ajudando. Dificilmente uma pessoa andaria por aquelas ruas num tempo tão ruim e ele não estava em condições de sair vagando sem rumo… Não, ainda não. Não, sem uma só esperança de encontrar um ser vivo.

Sentiu um toque em seu braço, era uma garota. Mascava chicletes, com a boca aberta, mostrando porções alternadas de dentes e lingua. Estava entupida numa mini saia de couro, justíssima, tão pequena quanto o top que mal lhe sustinha os seios. O cabelo ensopado escorria em madeixas sobre os ombros. Não era feia, talvez sem maquilagem fosse até bonita.

– E aí coroa? Vamos dar uma rapidinha?
– O que?
– É cara, vamos dar uma. É só cinquentinha e pode escolher a camisinha. Veja, tenho três.
– E aonde vamos?
– Quer pagar motel?
– Não.
– Então venha, logo depois, na segunda esquina tem uma caixa coletora, dá pra dar uma rapidinha. Vê se enfia a mão no bolso e comece a botar o distinto de pé.

Partiu seguindo a prostituta, enfiou a mão no bolso, obedecendo, sem reclamar de ser obrigado a fazer parte de um serviço que sabia que não faria. Sexo não estava incluído entre os sabores e dissabores de sua vida.

Avistou a caixa coletora de lixo. Estava transbordando, sacos rasgados mostrando o conteúdo fétido se esparramavam no chão. A garota deu alguns chutes, abrindo uma brecha que facilitou a chegada até a parede. Ficariam a salvo de faróis que viessem pela esquerda e como a rua era de mão única, o mais era de um negrume absoluto.

Enrolando o pouco de saia ela expôs sua nudez enquanto chamava para si o parceiro.

– Vem queridinho, vamos ver o que sabe fazer.

Foi se achegando, estava trêmulo, a perspectiva se ação imediata sempre o deixava assim. Cambaleanva visivelmente, os olhos incandescentes pareciam colocar para fora as chamas que ele tanto se preocupara em visualizar na mente. Quem o visse pensaria que era sua primeira vez.

Gentilmente tocou o corpo da garota, os seios, o colo e colocando uma das mãos naquela boca marcada pelo batom vermelho, passou rapidamente o objeto que havia na outra no alvo e longo pescoço feminino, que logo se tornou tão rubro quanto os lábios que a mão cobria. Fez o que foi lhe dado como destino fazer. Cumpriu sua missão de ceifeiro, quase separando a cabeça do tronco, que se dobrando foi descendo até sentar no meio da imundície.

Retirando do bolso um lenço, limpou as mãos e a navalha dos respingos de sangue, respirando profundamente de alívio, saiu assobiando uma modinha dos anos sessenta. Iria dormir em paz. Amanhã seria um outro dia. E sabia que certamente quando a noite caisse os estados de bem estar e mal estar se sucederiam fazendo com que a cenestesia costumeira o impulsionasse novamente. E seria preciso cumprir novamente seu destino. Nascera para ceifar e ceifador seria.

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Malva Gomes dos Santos – Escritora radicada em Aracaju/SE tem trabalhos premiados e participa de várias antologias no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em Salvador, na Bahia. É Membro Efetivo do Grupo Cultural Pórtico. Livro publicado: Vamos pro mundo? E livro editado pela Editora Ripress: Eu, o Magistrado! Tem textos publicados na Notívaga e em vários outros sites.

Atenção: Qualquer produto citado neste post não é um medicamento e não substitui o tratamento médico. Terapias citadas neste post não substituem a visita ao seu médico regularmente.

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