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Noemi Seca Pimenteira

No dia em que nasci, meu pai desapareceu da vida de minha mãe, foi só o tempo de olhar para mim no berçário e nem mesmo ao quarto retornou. Minha mãe soube disso por uma enfermeira, que ouviu ele dizer horrorizado: “Cruzes, tia Noemi voltou”!
Só consegui ficar no berçário umas poucas horas, logo minha mãe recebeu-me das mãos da enfermeira, que disse que não era por nada não, mas iria me deixar por ali mesmo no quarto, que o berçário desde que eu cheguei estava muito confuso! Um horror!

De minha mãe recebi o nome de Noemi, pois como dissera meu pai, era de uma tia dele e por um retrato antigo minha mãe diz que eu realmente pareço-me com ela, nos olhos, no nariz adunco e principalmente no queixo.

O apelido Seca Pimenteira não faz parte de meu nome, não foi minha mãe quem me deu. Recebi esse apelido no bairro em que morei na primeira fase de minha vida, até meus 21 anos. Completada minha maioridade, e não tendo arrumado casamento, minha mãe delicadamente pediu-me que desimpedisse sua vida, para ver se finalmente as coisas ajeitavam-se para ela.

Até que minha mãe tinha bastante razão, tudo em sua casa era destruído, quase perdido, esmolambado. A pobre sentia um desconforto no peito, era uma impressão terrível a cada vez que me via entrar em casa. Sabia de antemão que mais algum objeto se despencaria ou se partiria ou simplesmente deixaria de funcionar. Há muito nada de elétrico ou eletrônico entrava em casa. Nada era comprado com a finalidade de durar, tudo parece que se desfazia no ar. Como se os nêutrons e elétrons das moléculas endoidassem. Até as roupas de minha mãe praticamente apodreciam com poucos dias de uso.

Relógio que funcionasse dentro da casa? Seria mais fácil se fosse solar. Que me lembre não ficou nenhum vizinho que viesse nos visitar por este motivo. Mas o pior ainda não era isso, ruim mesmo era se eu me lembrasse de algum conhecido, minha mãe jurava como certo que no mínimo ele iria se resfriar. Parei por muitos de anos de pensar nas pessoas, mas hoje estou com vontade de lembrar, acho que é porque minha mãe veio me visitar, como faz uma só vez por ano. Ela diz que já é demais, que seu cabelo vai parar de crescer por mais ou menos cinco meses e as restaurações dos dentes vão incomodar.

Veja bem, se me lembrar ou falar das pessoas sem pronunciar seus nomes eles ficam em paz. Aprendi isto durante todos estes anos. Uso este recurso para não prejudicar os conhecidos. E tem dado certo, nunca falhou. E assim posso passear mentalmente entre meus velhos amigos, falar sobre eles com mamãe e pela descrição que faço de cada um ela pronuncia o nome, eu jamais o faço e nada de mal acontece nem acontecerá a nenhum deles. Era muito triste ficar o tempo todo evitando falar nas pessoas e principalmente das que foram importantes em minha vida.

Lembro-me de Fulano, ele vivia bem, tinha emprego certo, ganhava até mais ou menos. O conheci no ano seguinte ao que saí de casa. Coitado! Em menos de dois meses de namoro perdeu o emprego e só conseguiu um ou outro bico muito tempo depois que o namoro acabou. Nunca mais arrumou um trabalho seguro, numa empresa de futuro. Só mesmo umas colocações chinfrins que mal e mal davam para ir vivendo.

Sicrano foi o namorado seguinte, foi só o tempo de entrar em sua vida que ele foi enfraquecendo, como que murchando até que deixou o judô, deu adeus ao título que estava no gatilho para ser dele. Dizia claramente que eu só trouxe azar em sua vida. Empurrou-me para fora de sua sala e me proibiu de fazer visitas. Nunca mais pude apanhar um casaquinho que ficou num canto do armário, até que tentei dizer que nada meu poderia ficar com ele ou o efeito negativo continuaria lá através do objeto. Infelizmente ele urrava como um possesso e não queria ouvir nada do que eu tentava dizer.

E aquela lá, aquela que era minha melhor amiga? A quem eu confiava todos os meus segredos. Deu de ficar numa sonolência tremenda, mal comia, sempre presa à cama. Entrou em depressão profunda, eu mesma saí de sua vida, nunca mais a visitei. Soube que assim que deixei sua casa, com a firme determinação de não mais voltar, ela foi recobrando as forças, no dia seguinte já sentou para almoçar. E sei que em pouco menos de sete dias estava nova em folha. Só que parece ter entendido o que se passou. Num dia em que liguei para lá, e a mãe atendeu assim que pronunciei meu nome, ela deu um grito e disse que nunca mais nem ao menos passasse naquele bairro, bateu com o fone e foi o fim de uma bela amizade.

Tive outros namorados, um que foi atropelado, cearense forte, despachado. Deu de ficar com o olhar perdido, desanimado. Nem mesmo parava nos cruzamentos para atravessar, ficou meio aluado, até no dia do desastre. Assim que o pobre voltou a ficar consciente, mandou colocar uma tabuleta proibindo a minha visita no quarto. Foi muito vexatório este caso, pois assim que cheguei ao hospital, fui praticamente agredida pelos familiares.

O outro era um rapaz de Minas Gerais, até que durou, parecia que ele tinha o corpo fechado para mau olhado. Nada acontecia em três meses de namoro. Sei porque no serviço ele foi até promovido, ganhou um dinheiro até bom num bilhete de loteria e até uma viagem num bingo, para o Rio de Janeiro e lá acabou premiado com uma bala perdida. Coitado, não voltou mais, passou tanto tempo com a irmã, em sugestão que acabou se acostumando por lá e adeus namorado.

E aquele? Como era mesmo o nome dele? Ah! Lembrei, mas ele foi mandado embora daquela multinacional acusado injustamente de roubo. Até hoje luta no tribunal para ser inocentado. Um rapaz sério, muito católico, foi coroinha por anos a fio. Nunca uma palavra obscena saia de sua boca. Nunca uma história mais picante, nem mesmo mão boba ele tinha. E quando acaba, um rapaz com tantas virtudes, fica fixado na polícia. Não há neste mundo quem possa lhe dar um emprego que preste. Há poucos dias o vi, estava num terminal de ônibus com uma banquinha de balas e guloseimas. Quando viu que eu me aproximava, deu um grito, derrubando a banca e urrando um "puta que pariu" medonho, partiu em sentido contrário, se via o pó levantando do asfalto, tal a velocidade do infeliz.

E tem aquela, lourinha, colega de turma do cursinho que frequentei por menos de um mês! A pobre achou de sentar-se a meu lado na hora do vestibular. Foi desclassificada, coitada, acusada de colar. O fiscal achou de implicar logo com ela a melhor aluna do cursinho, quem ajudava todo mundo, substituía qualquer professor com vantagem, e além do mais era entre todos a mais correta. A menina foi tomada de uma tremedeira tão intensa que nada neste mundo fazia parar. Não houve mais jeito, ela foi retirada da sala e perdeu uma vaga já reservada para ela, pois se alguém na cidade fosse passar naquele vestibular, seria ela com certeza!

Lembro-me também daquela vesguinha, campeã de natação. Foi sorteada para fazer dupla comigo no revezamento do final da competição. Entrei primeiro na piscina e consegui um bom tempo. Ela mal entrou foi acometida de cãibra nas duas pernas, quase se afogou. Saiu de lá aos prantos, olhava para mim e gaguejando dizia qualquer coisa parecida com buxa, luxa, ninguém entendia direito o que ela dizia, entre uma fungadela e um suspiro, só eu! Nunca mais a pobre entrou numa piscina e era talhada para vencer um campeonato mundial. Depois de algum tempo, enviei um cartão de Natal para ela e o mesmo foi recusado com um lembrete em vermelho, onde se lia: “Diga que o destinatário MORREU”. Não sei porque alguém fez isso, pois tempos depois a vi rapidamente, numa sorveteria. Interessante que foi só o tempo de reconhecer-me e começou a gritar e a jogar sorvete em mim. Saí de lá rapidinho, detesto sorvete de baunilha.

E o corretor que me alugou este apartamento, é responsável também pelos demais deste
andar que pertencem a um só dono. Logo terá que arrumar outro trabalho, os outros apartamentos vivem vazios, ele não consegue alugar. Tem gente que sai daqui rapidamente, diz que sente arrepios sem ter correntes de ar. Falam que o chão chocalha, as paredes tremem e eu nunca vi nada disso, esse prédio não é esse treme-treme que todo mundo diz. Vivo quieta no meu apartamento, entre meus livros e não sinto nada balançar.

Não consigo ser freguesa antiga de lugar nenhum. Já mudei de mercadinho onze vezes nos últimos tempos. Eles fecham, vão à falência ou são assaltados constantemente e o dono perde o interesse e acaba mudando de ramo. Banca de jornal é que era um problema, pegava fogo, era arrombada, não sobrava quase nada que motivasse o dono a continuar na mesma atividade. Resolvi fazer assinaturas de publicações, mas tinha um problema, pois não conseguia ficar mais de um ano morando num lugar. Logo vinha o dono dizendo que não renovava contrato comigo, que eu só dava azar. Tinha que viver trocando o endereço, para a entrega dos jornais e revistas.

Nem passo perto de maternidades, li numa revista que na china tem um conto bastante interessante, onde relatam as virtudes de uma certa moça, de longos cabelos negros, de voz doce tanto quanto seus olhos negros e amendoados e que ela é a responsável pelos bebês e segundo a lenda, eles precisam de uma chance de sobreviver e de receber seu punhado de sorte que lhe está reservado. Esta espécie de fada madrinha chinesa visita o nenê e traz para ele, um pacotinho de felicidade embrulhado em um pouco de alegria e amarrado com fitas de prazer. Se eu ficar passando por perto, tenho certeza de que ela, a tal da fadinha chinesa muda o itinerário. Por vias das dúvidas não fico nas proximidades para não complicar a vida do nenezinho.

Minha carteira de trabalho era terrível, não tinha um emprego com registro superior a seis meses. As empresas fechavam, iam à falência, o dono adoecia. Cada um a seu modo entrava em insolvência. Certa época dei um tempo na busca de um emprego com carteira assinada e comecei a fazer traduções. Não deu certo os livros encalhavam nas prateleiras de tal maneira, que nem o melhor vendedor do mundo conseguia vender. Os clientes não aceitavam comprá-los nem com a proposta de pagar com uma nota de cinco, e receber uma de dez de troco e levando o livro para casa.
Resolvi fazer artesanato para não estagnar a cultura do país. Foi péssimo, pois capa de botijão de gás, fazia o danado explodir. Paninho bordado fazia a geladeira queimar. Tapetinho quebrava a perna ou a bacia do comprador. Mudei de ramo o mais rápido possível, pois eu estava era fazendo “arte.”

Comecei a fazer comida, resolvi aproveitar que tenho um tempero excelente, bom mesmo pode crer! Mesmo assim fui um fiasco, deixavam de vir pegar a marmita por estarem nos hospitais com problemas gastrointestinais. E o laboratório provava que não tinha nada estranho na comida. Pensei logo que eles lá do laboratório não entendiam muito de eflúvios negativos tanto quanto eu.

Fui aprovada num teste para vender seguro de vida, e fui mandada embora depressinha. Não foi por não vender seguros, ao contrário eu recebi elogios pelo número de contratos fechados, o problema é que se eu vendesse um seguro contra fogo, logo-logo o segurado recebia. Se fosse de vida, num instante o beneficiário estava batendo na porta da seguradora. Só dava tempo de vencer a carência e pimba! Foi um arraso na companhia. Pagaram todos os meus direitos para terem preservado o direito deles de ficarem longe de mim.
Num certo dia encontrei no jornal um anúncio pedindo uma secretária bilingüe para uma funerária, pensei bem e achei que não poderia fazer mal nenhum aos clientes. Fui lá para me candidatar, nem estranhei o fato de não ter mais candidatos, isso sempre acontecia. Ou quando a sala estava repleta deles, um a um ia sentindo-se mal, era uma gripe inesperada, uma urticária estranha, uma sessão de espirros de matar. Dentes sãos resolviam incomodar…Uma série de problemas acometiam os outros candidatos. E eu lá, firme, nada aparecia para incomodar-me.
Bem, mas voltando à funerária, disse-me o proprietário que não conseguia alguém habilitado para o lugar. E até que ele oferecia um bom salário, almoço, transporte, assistência médica e dentária, mas ninguém queria trabalhar lá. Praticamente de quinze em quinze dias ele tinha que concuidar uma funcionária nova para o mesmo lugar.

O certo é que desta vez acertei, estou no mesmo emprego há mais de cinco anos. Os negócios melhoraram. Fui promovida a gerente da filial da Praça da Bandeira. O proprietário está contente com os resultados e credita a uma boa estrela o fato de ter me encontrado. Este emprego prova minha teoria de que não existe emprego ruim o que existe é um certo tipo de serviço certo para um determinado empregado.

O único problema agora em minha vida é arrumar um namorado. Estou muito solitária, será que você não tem por acaso um amigo, ou quem sabe um irmão ou um parente que esteja livre e desimpedido? Será que tem alguém a quem gostaria de me apresentar? Espero que sim, estou tão cansada de jantar todo dia sozinha. E também gostaria de testar se já foi embora o meu azar.
Despachando tão gentilmente tanto defunto, cuidando deles com carinho, pode ser que levaram com eles minha arimã e deixaram a aúra-masda, o princípio do bem comigo. Você pode me ajudar? Não sou muito exigente, só quero um cara alto, loiro, bonito, de olhos azuis ou verde mar, decente, descompromissado, que queira constituir família rapidamente, que ganhe o suficiente para uma vida folgada, que adore gatos pretos, e que… Hum… Deixe eu pensar… tem mais uns pequenos detalhes, são tão importantes que preciso lembrar…
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Malva Gomes dos Santos – Escritora radicada em Aracaju/SE tem trabalhos premiados e participa de várias antologias no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em Salvador, na Bahia. É Membro Efetivo do Grupo Cultural Pórtico. Livro publicado: Vamos pro mundo? E livro editado pela Editora Ripress: Eu, o Magistrado! Tem textos publicados na Notívaga e em vários outros sites.

Atenção: Qualquer produto citado neste post não é um medicamento e não substitui o tratamento médico. Terapias citadas neste post não substituem a visita ao seu médico regularmente.

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