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Menos de um ano

Seu Vicente ficou viúvo no segundo ano de casamento, foi logo após o nascimento de Lucas. Neide, sua esposa, foi acometida de uma série de crises hepáticas que acabaram culminando com sua morte. Lucas estava com menos de seis meses de vida e teve que tomar conta do pai. Assim costuma dizer seu Vicente creditando ao filho pequeno a grande ajuda que recebeu para não morrer de tristeza.

Dizia sempre que Neide só veio para este mundo para deixar-lhe aquele filho abençoado. Mal deu tempo de desmamá-lo e ela foi juntar-se aos outros anjos. Ele possuía a convicção de que a sua mulher estava ao lado do Pai Todo Poderoso, entoando com sua voz magnífica lindos hinos para Ele. Contava ao filho estas e outras idéias muito pessoais, que guardara com carinho a respeito da mãe do menino, que cresceu aprendendo a amar sua mãe através do pai e de um grande retrato na parede da sala, que a retratava de corpo inteiro.

Ao levantar, ao deitar e ao sair seus olhinhos infantis procuravam o rosto materno e dizia onde estava indo e pedia a benção. Acostumou-se a falar com a mãe, vendo o quanto seu pai conversava com o retrato. Era para eles uma coisa muito natural. E assim a casa de enchia da presença materna. Seu Vicente nunca quis se casar novamente, dizia que a ele competia criar o filho para que fosse um homem decente, crente em Deus e que ao terminar seu dever paterno, já a vida poderia se desligar dele, que o que mais ansiava era ir encontrar-se com a esposa e prestar contas da trabalheira que o menino dera e passar um pito nela por deixa-lo tão só.

Seu Vicente era dono de um armazém muito bem sortido e foi entre caixas e mais caixas de mantimentos e produtos de limpeza que o pequeno cresceu. Sempre cuidou do filho sozinho. Pagava uma empregada que cuidava da casa, da roupa e da comida. Mas as tarefas de trocar fraldas, dar banho e alimentar o menino ele reservava para si. Era com prazer que fazia isso, gostava de cuidar do pequeno, não se importava de ficar todo molhado para conseguir dar banho, nem mesmo se importava com os xixis e cocôs da vida.

A criação deu certo, Lucas era forte, obediente, trabalhador. Nunca discutia com o pai, eram muito ligados, amigos sinceros um do outro e ainda por cima ambos torciam pelo Palmeiras, sorriam e choravam pelo time. Não havia nada que não fizessem juntos, até para arrumar a primeira namorada eles fizeram um “conselho de família”, junto ao retrato da mãe. Ficou decidido que o rapazinho já com seus dezesseis anos poderia pedir a Helenice em namoro.

Ainda hoje eles riem da trabalheira que deu para Lucas decorar as falas. Queriam, pai e filho, impressionar a Helenice, que muito mais madura que ele, não lhe deu a tempo de gaguejar o suficiente e foi logo dizendo que aceitava sim namorá-lo. O moço ficou meio decepcionado, imagine só, quanto tempo perdido, tanto dele quanto do pai. Que coisa, essas mulheres não têm paciência de esperar que o homem cumpra sua missão direito, querem tudo às pressas! Assim foi reclamando durante o caminho de volta para casa. Ia chutando tudo que encontrava. Queria ter a alegria de vencer a resistência da garota e ela faz aquilo. Perdeu o interesse por ela.

Chegando em casa, encontrou o pai na poltrona, sempre perto do retrato e depois do “bença mãe, bença pai”, foi logo se atirando no sofá e dizendo ao pai tudo que havia acontecido. Seu Vicente riu muito e disse que os tempos estavam mudando muito depressa, que era necessário acompanhar o progresso de tudo ou o mundo passaria como um rolo compressor sobre ele. O rapaz reclamou que perdeu a ocasião de sentir o mesmo que o pai sentiu quando foi pedir a mãe em namoro. E o pai rindo, disse que as coisas vão mudando, tudo hoje é feito com muita pressa. Mas quem sabe se mais adiante ele não se engraçaria por uma mocinha mais paciente? Helenice seria sua primeira namorada, mas isso não queria dizer que seria a última. E assim o filho ficou mais conformado.

Seu Vicente estava coberto de razão, muitas namoradas passaram pela vida de Lucas. Ele nunca se ligou o suficiente para pensar em casamento, seus namoros não ultrapassavam a marca dos quatro meses. O pai ria do amor enorme dos primeiros dias, da paixão louca do filho que só falava na eleita do momento. Mas, passado o primeiro mês, ele ia esfriando até ser preciso seu Vicente empurra-lo para fora de casa, obrigando-o a ir namorar. O diabo é que as mocinhas ficavam logo suas amigas e o velho passava a ter que alugar o ombro para que elas chorassem ao fim do namoro.

De vez em quando ficava num aperto danado, uma estava ainda chorando as mágoas e a outra já vinha entrando para chorar também. Ele dizia que ficava numa camisa de varas. Fazia-se de bravo com o filho, que sabia que aquela brabeza toda era uma forma de extravasar o orgulho que sentia pela macheza do rapaz, que afinal de contas estava no seu direito de homem, de caçador. Quando a sós com ele era comum dizer que quem tivesse suas cabras que as prendesse porque seu bodinho cheiroso estava era solto! E batia fortemente no ombro de Lucas, demonstrando claramente que era assim mesmo que macho agia. Orgulhos de pai às antigas que só homem mesmo entende direito.

Lá de vez em quando aparecia um pai ou uma mãe, exacerbados pelo abandono e desespero em que Lucas havia mergulhado a filha. Seu Vicente fazia uma cara compungida e dizia: “Meu filho é assim mesmo… Bem que eu tinha avisado à sua moça de que o rapaz não foi feito para casamento e que não conseguia manter o interesse por mais tempo e que com a sua filha até que durou… Também uma moça boa e direita daquelas… Ele estava cansado de dizer ao filho que se a perdesse, outra igual não encontraria nunca. “ Assim ia-se embora o pai ou a mãe, ligeiramente mais conformado e ele conseguia manter a freguesia.

Mas lá no íntimo se sentia feliz por ter tido a sorte de ter um filho que não o decepcionara. Não entendia muito bem como é que neste mundo pode ter homem que não gosta de mulher, mas seu filho não estava neste meio. Muito ao contrário, felizmente. Assim que Lucas chegava, passava-lhe uma descompostura que só fazia o rapaz sorrir e se desviar dos cascudos que passavam bem perto de sua cabeça, sem nunca acertarem o caminho. Acabavam abraçados e rindo juntos, como cúmplices que eram. Só paravam quando um deles olhava para o retrato e dizia, “está vendo mãezinha, olha ele!”

Lucas só procurava moças mais soltas, que como dizia seu pai, já tivessem perdido “seus três vinténs de mel coado” há muito tempo, era assim que seu Vicente se referia à virgindade. Ele ensinou o rapaz a respeitar as moças que ainda fossem intocadas. E logicamente ele fugia delas, nunca ficava por mais de um dia ou dois, pois não queria correr o risco de acontecer alguma coisa, e acabar aborrecendo seu pai. Afinal esta história de que a carne é fraca pode ser velha, mas continua verdadeira. Depois de alguns beijinhos ele dizia logo que não sabia somente namorar, e que ela, a moça, era de família, não deveria perder tempo com um sujeito à-toa como ele e despedindo-se, desaparecia. Costuma dizer aos amigos que sentia mais medo de virgem do que de bandido.

E assim os dois iam levando a vida. O trabalho no armazém tomava o dia todo. À noite Lucas ia para a faculdade, fazia administração de empresas, e o pai ficava só com os gatos, por quem nutria um carinho enorme. Havia de todos os tamanhos, raças e cores. Se houvesse um gato em desespero nas vizinhanças, certamente encontraria abrigo na casa dele. De vez em quando um vizinho se achegava para uma prosa e uma cervejinha. Ele era muito bem quisto, todos gostavam de seu jeito calmo, tranqüilo, da maneira correta dele navegar por esta vida. Nunca se aborrecia com ninguém, estava sempre pronto a ajudar. Assim vivia até que um dia, sentiu-se desfalecer. Já era noite fechada, o filho estava na faculdade e ele ali, s
entindo-se desaparecer num buraco negro.

Mas passou, ficando apenas uma dor de cabeça muito forte, que foi passando vagarosamente. No dia seguinte resolveu usar a assistência médica que só fazia pagar. Assinara o contrato há mais de oito anos, tanto ele quanto o garoto estavam cobertos, mas felizmente ainda não precisaram usar. Assim foi que pela manhã acordou o filho bem cedo, dizendo que precisava sair, deixara umas coisas para acertar. Como era dele a responsabilidade pelos pagamentos das contas, Lucas não estranhou, só fez se levantar e ir cuidar da freguesia.

Seu Vicente foi para o Hospital Português e lá foi feita uma batelada de exames que duraram a semana toda. Todo dia ele saía e todo dia nada dizia a Lucas. Chegou o dia em que finalmente saberia o resultado de tantos e tão sofridos exames. Principalmente para ele que possuía um exagerado pavor de agulhas e de ficar nu perto dos outros. Não era acostumado com doenças e exames, havia nele era muito medo daquela parafernália toda e das conversas horríveis nos corredores.

Foi atendido pelo mesmo médico da primeira consulta, que disse que gostaria de conversar com a família dele. Seu Vicente muito sério disse que a família que possuía estava ali com ele, naquele consultório. Que o médico tratasse de aceitar falar só com ele mesmo. Parecia que estava adivinhando que as notícias não seriam nada boas. Como de fato não eram, seu Vicente estava com um problema sério, um aneurisma, uma das veias de seu cérebro estava dilatada à espera de que se cumprissem seus dias, era uma simples questão de tempo, menos de um ano restava-lhe de vida. No mais, era tomar os medicamentos e procurar não se aborrecer.

Saiu de lá meio aéreo, mas fazendo suas contas, viu que era possível que desse tempo de assistir a formatura do filho. Eles ainda estavam no início de março, e quem sabe ele ainda chegaria inteiro no final do ano. Em nenhum momento se preocupou com o aneurisma, que para ele era apenas um meio de transporte para a outra vida, uns iam de câncer, outros de dengue, outros de acidentes e ele ia de aneurisma. Para ele o aneurisma era um bilhete, uma passagem que o conduziria até onde estava a sua Neide esperando por ele. Essa certeza tirava de seu Vicente qualquer sombra de medo que por ventura viesse a aparecer. Era um homem em quem não medo de morrer, nada, era completamente zerado este medo. Achava que era apenas uma forma de transporte para o além, nada mais. Como ter medo de ônibus, trem, avião ou de morte? Bobagem, tolice! E como ele costumava dizer, nós que vivemos em terras brasileiras, poderemos nos acostumar a viver em qualquer lugar. Somos diplomados em sobrevivência, mesmo que seja após a morte.

A sua única preocupação era em esconder os remédios. Não queria o peso da separação entre ele e seu filho. De mais a mais o menino estava em vias de se formar, precisava ter seu pensamento apenas nos estudos. Não era função do pai atrapalhar o filho, por quem morria de amores. Conseguiu uma vaguinha na sua gaveta de cuecas, ali nunca o filho mexeria, pois ele ria das “samba canções” que o pai usava. E a empregada coitada, era tão analfabeta que jamais conseguiria saber para que eram aqueles remédios.

E assim começou seu Vicente a preparar sua viagem. Em abril seria a data da renovação do seguro de vida. O apartamento que comprara para o filho estava todo pago, não se preocuparia por este lado. Não queria que ele passasse aperturas e Neide ter direito a reclamar dele quando o visse. E assim foi sobrevivendo naqueles dias, preparando tudo, para deixar a vida do menino dentro dos conformes.

Na sexta feira, Lucas chegou em casa mais cedo e acompanhado. Vinha com Laurinha, uma das namoradas dele. Estava com cara de quem comeu e aprontou e pela história que estava contando era isso mesmo que havia acontecido. Laurinha estava grávida de quase seis meses e foi colocada porta afora pela família. O rapaz estava esfregando as mãos, sinal de que o nervosismo havia tomado conta dele. Seu Vicente fez as contas e viu que o menino nasceria no inverno. Ele ainda teria tempo de ver um neto.

Abraçou a moça e para espanto do filho abraçou-o também, sem uma recriminação sequer. Quis saber o que eles queriam fazer, e soube que queriam casar. Levou-os até o retrato e olhando para Laurinha, disse solenemente: “Aqui está sua sogra menina. Veja Neide, aqui nesta barrigudinha está nosso netinho.” E olhando para o filho, pediu que se fosse menino que ele desse o nome de seu pai, Henrique e que se fosse menina que a chamasse Neide. Lucas emocionado, só fez aquiescer com um sinal de cabeça. Seu Vicente disse a Laurinha que ela agora era a dona da casa, que eles seriam sua nova família.

Os dias seguintes foram todos dedicados à preparação do casamento, cartório, igreja, móveis para o quarto, já que Lucas não queria ir morar no apartamento novinho que estava à sua disposição e Laurinha também não fazia questão. Ela fez foi se acostumar a servir no balcão gostava daquele entra e sai, seu Vicente pôde até descansar mais. De vez em quando vinha ver se a nora não estava cansada, mas recebia um largo sorriso e a negativa. Ela dizia alegremente que estava inteira, que ele podia ficar lá, alisando seus gatos.

Gatos… Ele precisava fazer alguma coisa com eles, não dava mais para ter vinte e tantos gatos em casa. Seria um transtorno para a vida do bebê, e não queria deixar para Laurinha dar um fim neles, pois acabaria por indispô-la com Lucas. Encontrou na lista uma associação que cuidava somente de gatos e no dia seguinte foi para lá. Informaram que deveria fazer uma pequena doação por cada gato, que seria revertida em alimentação enquanto não fosse encontrado um lar para cada bichano. Foi com uma alegria imensa que assinou o cheque e mandou que fossem buscar os animais. Naquele mesmo dia já não se ouviu um miado sequer naquela casa, que ele mandou dedetizar, dizendo que o nenê não podia nascer num saco de pulgas. Eram exageros de avô, mas ninguém opôs qualquer resistência.

Os dias de seu Vicente foram ocupados na confecção de pequenos bichinhos de madeira, entalhados a canivete, ele era um artista, daqueles bons artistas desconhecidos de que o mundo está cheio. Ficava horas e horas em sua cadeira, entalhando. Quando uma crise o acometia, ele se fechava no quarto e lá sofria seu tanto. Ia regularmente ao médico, tomava direito todo e qualquer medicamento. Não queria ir sem ter visto o neto, para poder conversar sobre ele com Neide.

Os meses se arrastavam e de seu canto o pai contemplava a alegria do filho. A barriga de Laurinha parecia explodir, ela estava linda, sempre tão alegre, trabalhadeira. Tomava conta sozinha da mercearia, já que o filho estava durante o dia num tal de estágio. Ela era sabida, comprava tão bem quanto seu Vicente.

No dia 03 de junho, Laurinha estava arrumando os pães no balcão, quando repentinamente seus pés ficaram molhados. A bolsa havia rompido e ela foi dizer a seu Vicente que seu neto estava vindo. Ele ficou numa empolgação imensa, rodando numa movimentação toda programada. Fechou a mercearia e colocou um cartaz que havia feito há alguns dias, onde se podia ler: “Fechado para ir buscar meu neto”. Chamou um táxi, pois não queria dirigir e foi saindo levando a mala e dizendo que Laurinha tivesse calma, que lá do hospital ele chamaria o filho.

Assim veio ao mundo o pequeno Henrique, num mar de alegria, amor e esperança. Seu Vicente viu o neto e se apaixonou por ele. Ficava horas ao lado do menino. Foi quem deu o primeiro e todos os outros banhos dos dias seguintes. Cuidava de tudo, do umbigo, das manhas e de uma ou outra dorzinha de barriga. Ele era perfeito e a nora e o filho sabiam disso. Num instante o menino aumentou de peso, graças ao bom leite materno que ele sugava com força.

Enquanto isso o agora avô, se preparava pa
ra a partida. Não sabia o porquê, mas achava que se despediria deste mundo à noite. Estava tudo acertado, a carta para o filho ele colocava todo dia em cima da camiseira, lá, além das despedidas e recomendações, ele avisava que a funerária estava paga, e sua carneira já estava pronta. Tudo dentro dos conformes, para que não houvesse atropelos. A cada manhã ele recolocava a carta na gaveta das meias, e ia contente de poder passar mais um dia com o neto que jurava já o conhecia.

Chegou o mês de outubro e seu Vicente sentia que as crises ficavam mais sérias, ele demorava mais a voltar a si. O medo de ir à rua e passar mal o acompanhava, e a desculpa de olhar o netinho era ótima para que ninguém desconfiasse. E era o que ele fazia, sempre com o menino por perto, nunca no colo, dizia que era para não deixá-lo manhoso, mas só ele sabia que o que impedia de pegar o menino era o medo de perder a consciência e acabar machucando o pequeno.

Naquela noite Lucas estava demorando a chegar, todos os dias antes das vinte e três horas ele já estava chegando em casa. O relógio já marcava mais de meia noite quando o telefone tocou. Era do hospital, o rapaz sofreu um acidente e estava na mesa de cirurgia. Seu Vicente não acreditava que aquilo fosse possível. O filho era tão bom motorista, como foi acontecer um acidente daquele porte? Chamou a empregada e entregou a ela a guarda do menino, disse que não abrisse a mercearia na manhã seguinte, que só cuidasse da criança e foi com Laurinha para o hospital. Não chegaram a tempo, o filho já não vivia mais.

Toda a preparação que o pai fez para si foi usada pelo filho. Foi um baque enorme para ele. Pensava deixar aqui a continuação de sua vida, cuidando do pequeno Henrique e agora, o que seria dele? Do menino? De Laurinha? Meu Deus qual a necessidade de levar Lucas tão cedo? Não era isso que estava programado, por que havia de ser diferente? Por que não deixar correrem as coisas de maneira natural? O certo não era os mais velhos cederem sua vez aos mais novos? Que injustiça tremenda foi feita ao pequeno Henrique, perder um pai maravilhoso como Lucas e ter a seu lado um avô prestes a abandonar este mundo.

Mas ficar desesperado não adianta nada, a vida tem que seguir seu rumo, traçado por Alguém que tem todas as respostas para as perguntas que angustiam seu Vicente. Ele tem que se fazer de forte para ajudar Laurinha a remar por este rio tormentoso que é a viuvez recente. Tem que prepará-la para a vida já que a família da moça não quer vê-la nem pintada. Eles são rancorosos, o casamento e nem mesmo o neto conseguiram abrandá-los.

Seu Vicente ama tanto sua tão reduzida família, que tem medo de deixá-los e procura aproveitar ao máximo o tempo que lhe resta. Despede-se de Henrique e de Laurinha todas as noites como se não fosse vê-los pela manhã. Continua colocando uma carta sobre a camiseira com instruções para Laurinha de tudo que ela deve fazer. Informa que a funerária já está paga, diz onde estão os recibos e tudo mais que ela tem que saber.

Hoje é o terceiro aniversário de pequeno Henrique, o avô está todo feliz fotografando a festa, feliz com este tempo extra que resolveram lhe conceder, se é que esses médicos sabem de alguma coisa.

Seu Vicente continua colocando toda noite a mesma carta, que já está amarelada, suja e amarrotada em cima da camiseira, continua esperando que sua hora chegue e nada dela chegar. O pequeno Henrique dá um beijo estalado na mãozinha e joga para Neide e diz boa noite vovó. Seu Vicente o flagrou um dia contando para a vovó que a mamãe bateu no bumbum dele e que doeu muito. E achou graça quando Laurinha foi até o quadro para esclarecer que o Henrique mereceu, que está muito levado. Pareceu a seu Vicente ouvir o riso cristalino de Neide. Mas ele sabe que foi apenas coisas de sua saudade, que ela está lá do lado de lá da vida, bem segura e esperando por ele.

Na visita que faz regularmente ao médico ri com a pergunta: “Como é seu Vicente, ainda por aqui?” Quem estiver passando com certeza pensará que ele estava de viagem marcada e resolveu adiar. E não foi isso mesmo que aconteceu? Nesta vida às vezes nem se sabe a hora em que se chegou, quanto mais a hora em que nos despediremos dela. E o pequeno Henrique continua a desfrutar as alegrias de ter um avô, que o ama apaixonadamente, que zela por sua integridade, que ajuda sua mãe a se firmar mais e mais. Ela ainda é tão jovem, ele é tão pequeno, acho que isso enterneceu Aquele que tudo sabe, tudo vê e em tudo ajuda. Longa vida seu Vicente, é o que mais desejo, em nome de Jesus, Amém!
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Malva Gomes dos Santos – Escritora radicada em Aracaju/SE tem trabalhos premiados e participa de várias antologias no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em Salvador, na Bahia. É Membro Efetivo do Grupo Cultural Pórtico. Livro publicado: Vamos pro mundo? E livro editado pela Editora Ripress: Eu, o Magistrado! Tem textos publicados na Notívaga e em vários outros sites.

Atenção: Qualquer produto citado neste post não é um medicamento e não substitui o tratamento médico. Terapias citadas neste post não substituem a visita ao seu médico regularmente.

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