Publicado em

Hipertensão em animais

Hipertensão arterial é um assunto de extrema importância em medicina humana. Nível de estresse, hábitos como fumar, beber e comer dieta com alto teor de sal contribuem para essa condição perigosa, que acomete cada vez mais pessoas, especialmente nos Estados Unidos. Mas, e nossos animais? Eles também sofrem de hipertensão? Eles certamente não fumam, não precisam se preocupar em pagar as contas no final de cada mês e não depositam colesterol nos vasos sanguíneos. Mas, mesmo assim, nossos animais podem, sim, sofrer de hipertensão arterial sistêmica, e isso pode ser mais comum do que nós imaginamos.

Em pessoas, a hipertensão é na grande maioria considerada "primária", ou seja, não existe uma doença causando isso, mas sim um estilo de vida. Em animais, a hipertensão primária é muito rara, no entanto, existem diversas doenças comuns que podem causar hipertensão em cães e gatos, tais como: doença renal crônica (muito comum em gatos), hypertireoidismo (comum em gatos), doenças glomerulares (comum em cães), doença de Cushing's ou hiperadrenocorticismo (comum em cães), diabetes mellitus (comum em cães e gatos), acromegalia (comum em gatos), entre outras.

Assim como em pessoas, os animais não apresentam sinais clínicos específicos para hipertensão e, por isso, o diagnóstico de hipertensão é feito muitas vezes durante exame de rotina. Desde que se adotou o costume de checar a pressão sanguínea em animais durante cada exame clínico nos Estados Unidos, percebemos que muitos animais sofriam deste mau sem que o dono tivesse nenhuma idéia do que poderia estar acontecendo. Hoje em dia, checar a pressão sanguínea em animais virou exame de rotina especialmente em cães e gatos com idade superior à sete anos ou com doença pré-existente.

Uma outra diferença importante entre a nossa hipertensão, e a hipertensão dos animais, é o órgão alvo mais acometido. Em pessoas, o coração vem em primeiro lugar, seguido dos rins. Em animais, o olho é o órgão mais sensível à hipertensão. Quando a pressão arterial aumenta em animais, e se mantém aumentada, é muito comum causar lesões na retina, podendo levar a cegueira. A hipertensão causa hemorragia pela ruptura dos vasos sanguíneos da retina e também causa o deslocamento da retina. O dono do animal pode não perceber nada ou notar que existe uma leve perda na acuidade visual do seu animal. Isso acontece no início do processo, e se diagnosticada nesta fase, pode ser possível reverter os danos e salvar a visão. Mas, infelizmente, é muito difícil notar esta súbita diferença na visão e, quando o animal é levado ao veterinário, já é tarde demais.

A maneira com que medimos a pressão arterial em animais é um pouco diferente da maneira que realizamos este teste em pessoas. Em animais, nós também usamos o manguito (faixa que aplica pressão no braço). O manguito pode ser posicionado nas patas dianteiras, traseiras ou na cauda. Ao invés de usar o estetoscópio para auscultar o fluxo sanguíneo, como fazemos em pessoas, em animais temos que usar um transdutor de ultrassom, capaz de converter o fluxo sanguíneo em um sinal audível. O manguito é conectado à um instrumento com escala numérica e uma barra de mercúrio que se move de acordo com a pressão aplicada. Em animais, a pressão arterial normal deve ser menor do que 150 mmHG (milímetros de mercúrio) sistólica. Nós não medimos a pressão diastólica rotineiramente em animais. Pressão sistólica acima de 180 mmHG é considerada de alto risco pelo Colégio Americano de Medicina Veterinária Interna (ACVIM).

Infelizmente, medir a pressão arterial em animais não é tarefa fácil. Muitos animais quando visitam seus veterinários estão estressados e nervosos, o que pode causar elevação na pressão sanguínea e, muitas vezes, suficiente para ultrapassar a marca de 180 mmHG. Por isso, é importante repetir várias vezes o exame ao longo do dia em animais suspeitos de ter hipertensão.

O sugestão da hipertensão em animais envolve cuidar a doença pré-existente. Muitas vezes o controle da doença primária já é o suficiente para trazer a pressão arterial de volta aos limites normais. Em casos onde a hipertensão não é possível de controlar, temos à disposição diversos tipos de medicamentos que podem ser usados, como vasodilatodores sistêmicos, bloqueadores de canais de cálcio e mudança de dieta. A dieta com alto teor de sal também pode contribuir para a hipertensão em animais. Existem diversas rações especiais com baixo de teor de sal para cães e gatos.

Ao levar o seu animal ao veterinário, peça pela checagem da pressão arterial, especialmente em animais mais velhos, diagnosticados com doenças renais ou endócrinas, ou caso você tenha notado qualquer mudança na visão do seu animal.

* Este Texto faz Parte da Coletânea do Dr. Luiz Bolfer e todos os textos das páginas da PetLine foram publicados em Colunas, Saúde Animal por Dr. Luiz Bolfer.
Dr. Luiz Bolfer formou-se em Medicina Veterinária no Brasil e mudou-se para os Estados Unidos para se especializar em Cardiologia, Emergência e Cuidados Intensivos em cães e gatos. Completou 12 meses de Internato em Clínica Médica e Cirúrgica Veterinária na Universidade de Illinois. Atualmente é Residente em Emergência e Cuidados Intensivos no Centro Médico Veterinário da Universidade da Flórida em Gainesville.

Atenção: Qualquer produto citado neste post não é um medicamento e não substitui o tratamento médico. Terapias citadas neste post não substituem a visita ao seu médico regularmente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *