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Brincadeira tem hora…

Nancy era o que se poderia chamar de uma garota dos diabos. Tudo o que você pudesse pensar que nesta vida, alguém poderia vir a fazer de errado, ela certamente já teria feito há muito tempo. E como não se tratava de nada que fosse digno, com certeza ela teria feito a trapalhada ou trapaça muito bem feita.
A garota vivia com um tia velha, numa cidadezinha que ficava numa das muitas entradas à esquerda, lá na estrada que vai para Xique Xique, no interior da Bahia. Quando não houvesse mais estrada, só um grande morro branco a subir, o sujeito poderia se dar por chegado, desde que o destino dele fosse “o fim da picada”, a cidade de Uibaí.

Pois é, a sapeca da Nancy não era mole. Estudava na cidade vizinha, Presidente Dutra, de onde só se podia voltar à noite se fosse de carona, pois que eu saiba até hoje, não existe ônibus por lá. Somente uns lotações que andam como bólidos alucinados, por aquelas estradas esburacados. Mas só até ali pelas oito da noite. Depois disso, só o destino é quem sabe como levar ou trazer alguém por lá.

Certa noite, Nancy saiu da escola perto de onze horas e ficou até mais tarde, tomando uns goles no bar da Praça de Presidente Dutra. Quando viu, até os poucos arruaceiros já tinham ido embora para casa. E só ela ali. Foi ficando com frio, com sono e um aborrecimento imenso foi tomando conta dela. Resolveu subir para a estrada e tentar conseguir carona, e assim vencer os dezoito quilômetros que a separavam de Uibaí.

Deu sorte, nem bem chegou na estrada, uma luz de farol se aproximava. Era um caminhão. Parou assim que ela deu com a mão. Subiu e acomodou-se na boléia. O motorista fez qualquer comentário sobre a noite fria, a hora tardia e ela que não estava de bom humor, não deu resposta.

O caminho era uma descida só. Não havia outra cidade, era somente esperar que o veículo vencesse a distância. E Nancy se manteve calada. O motorista deixou-a de lado e se contentou com a música de viola que saia do rádio. Cantou até chegar na entrada de Uibaí, onde tem um antigo cemitério. Foi quando Nancy pediu que parasse.

Ele freou o caminhão e à guisa de despedida, comentou:

Você não gosta muito de conversar. Não é? Ao que Nancy prontamente respondeu:
Quando era viva, até que eu gostava muito de conversar, mas agora…

E ela foi saindo, tomando uma ruazinha lateral, com seu vestidinho branco de chifon, jogando um lenço da mesma cor sobre os cabelos, pois começava a cair uma chuvinha fina.

Encontraram horas depois, o motorista meio abobado, todo urinado e encolhido na boleia do carro. Ele ficava balbuciando qualquer coisa sobre uma mulher de branco, a quem dera uma carona na boléia de seu caminhão.
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Malva Gomes dos Santos – Escritora radicada em Aracaju/SE tem trabalhos premiados e participa de várias antologias no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em Salvador, na Bahia. É Membro Efetivo do Grupo Cultural Pórtico. Livro publicado: Vamos pro mundo? E livro editado pela Editora Ripress: Eu, o Magistrado! Tem textos publicados na Notívaga e em vários outros sites.

Atenção: Qualquer produto citado neste post não é um medicamento e não substitui o tratamento médico. Terapias citadas neste post não substituem a visita ao seu médico regularmente.

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