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Adeus solidão!

Pietra era de origem italiana, foi escolhida pela família para cuidar dos pais na velhice. Não soube defender seus direitos à própria vida, passou a ser a sombra protetora dos pais, que como quase todos os bons velhinhos, eram terríveis. Era chamada duzentas vezes por dia, a todo instante um deles queria alguma coisa e para variar, nunca as vontades coincidiam. Se um queria chá o outro queria suco ou café. E a filha ia cuidar de fazer a encomenda. Acontecia várias vezes o absurdo de após entregar a cada um o pedido feito, receber a desfeita de ter jogado sobre si o conteúdo da caneca. Eles diziam que não era aquilo que haviam pedido. E lá ia ela, toda molhada, de volta ao borralho.

Era uma vida infeliz e solitária, já que não podia contar com nenhum deles para uma conversa amena. Só ouvia seu nome sendo gritado o dia inteiro e ordens, ordens e ordens. Ela parecia enlouquecer, porque normalmente eles perdiam o sono ou trocavam o dia pela noite e Pietra era obrigada a trabalhar em dois turnos. De mais a mais, gente idosa não tem mesmo muito sono, e tanto o dia quanto a noite ficam enormes. Era comum iniciarem a qualquer hora do dia ou da madrugada os gritos chamando-a.

A vizinhança estava acostumada a ouvir as descomposturas que os velhos passavam na pobre. Normalmente a chamavam de "imbecille", "parva" quando não saiam frases inteiras como: “Cammine sua sfortunata, sciocca!”, “Che fa is questo accada la sua testa cava?” Mandando na primeira que: “Ande, sua desgraçada!” E na segunda perguntavam: “O que se passa nesta cabeça oca?” Em português arrevesado ainda misturavam às frases palavras “delicadas” como: tola, sonsa, songamonga e outras parecidas. Mas o que mais doía era quando eles a chamavam "desgraciata", naquele italiano aportuguesado, misturando “madonas mia”. Pietra sentia muito ouvi-los levarem à virgem toda rebeldia de que eram possuídos, naquele mar de incompreensão.
E o escândalo acontecia de repente. Se a manta que lhes cobria as pernas, escorregasse ou faltasse água no copo, iniciavam a ladainha. E o pior era quando aparecia por lá algum dos outros filhos. Era humilhante assistir à execração de que Pietra era vítima. Tanto falavam dela os velhos, quanto a descompunham os irmãos. Achavam que era preguiçosa, e não tinha amor pelos pais, e que desdenhava a santa missão de cuidar deles.

Ela baixava a cabeça e ouvia sem dizer palavra, arrancavam dela a custo uma promessa de procurar melhorar o tratamento dado aos velhos e lá se iam danados da vida por terem que perder tanto tempo chamando a atenção da irmã, que deveria se compenetrar de suas funções e dar-se por satisfeita.

Voltavam para suas casas onde os esperavam as esposas e os filhos que raramente se dignavam a fazer uma visita aos parentes tão próximos, a não ser na grande festa de mais um aniversário de casamento do casal, que já haviam há muito deixado as bodas de ouro para trás.

Este era o pior dia da vida de Pietra, só comparado ao Natal. Todos tinham sempre alguma coisa de desagradável para dizer-lhe. Ouviam os resmungos dos pais e se colocavam em pé de guerra, partindo contra ela, que ouvia calada. Ficava indignada quando a acusavam de roubar do dinheiro dado aos pais para suprir as necessidades da casa. Diziam que ela estava fazendo economias deixando faltar os petiscos de que os velhos mais gostavam. Não queriam entender que com trezentos minguados reais não dava para alimentar com salsichões, salaminhos e provolones os dois velhos e ainda limpá-los, medicá-los e fazer frente às taxas e arranjos da casa.

Não viam que ela se vestia das sobras de todo mundo, pouco importando a eles que o ofertante fosse magro ou gordo, era problema dela. Que costurando a mão, tentava dar um jeito de colocar a roupa mais ou menos arranjada sobre o corpo. E ainda precisava ouvir referência constante à sorte, muita sorte por não precisar ir lutar pelo pão de cada dia.

Coitada, realmente não saía para lutar pelo pão, mas como era amargo o pão que comia! A vida da “guardi㔠dos pais era chorar, de cansaço, de raiva, de solidão. O que não faltava era motivo. Ninguém reparava que a casa vivia limpíssima, que os pais não tinham uma assadura sequer. E ela nunca deixou que se abrissem feridas nos corpos deles. Também não reparavam que embora usassem fraldas, estavam sempre cheirosos, Pietra cuidava muito bem dos pais, só a família é que achava que o que ela fazia era pouco. Não reparavam que eles estavam sempre rosados, bem alimentados e limpos. Não viam que a pessoa malcuidada ali era Pietra, por não ter tempo para cuidar de si mesma.

Chegou mais um Natal, como de costume todo mundo se lembrava dos nonos, e enchiam a casa no dia vinte e cinco de dezembro, era o dia em que todos por comodismo, achavam que passando o dia e a noite de Natal perto dos pais, o menino Jesus ficaria satisfeito. E assim ficavam liberados para seus compromissos sociais da data.

Na tarde do dia vinte e quatro era carro chegando a todo momento, com gente apressada, que nem ao menos descia, obrigando Pietra a ficar indo e vindo da cozinha para o portão da casa. Um trazia o peru para assar. Outro, as verduras ainda cruas para que fizesse a maionese. Um terceiro chegava com os ingredientes para a massa e para as roscas natalinas. E assim Pietra virava a cozinheira da família em peso, que se daria ao luxo de vir no dia seguinte, bem mais tarde, quando a mesa já estivesse posta para o almoço e sair tarde da noite, deixando as vasilhas por lavar e a casa num rebuliço danado.

Era assim todo ano, sem tirar nem pôr. O que mudava eram os “presentes” que traziam para ela: sabonetes, panos de prato, tecido para fazer fraldões, lençóis, e camisolas para os velhos. Enfim, traziam de presente mais serviço.

Mas no Natal de 96 trouxeram um visitante, o irmão de uma das cunhadas. Era um senhor já de seus cinqüenta anos, bem apessoado, muito observador, chamava-se Alfonso Tartarelli. Depois de ser apresentado aos nonos, viu Pietra se esquivando de uns e de outros, na tentativa de terminar de colocar a mesa a tempo. Muitos já estavam reclamando da demora e que este ano estava mais lerda que de costume. Riam dessas "delicadezas" dirigidas a ela e Alfonso só fazia observar.

Nada passava despercebido, o volume de trabalho era tanto, que repentinamente tirou o paletó e foi atrás dela começando a levar bandejas cheias de comida para a mesa. Ela ficou nervosa com a intromissão, mas recebeu um sinal para que ficasse calada e um belo sorriso. Imagine só, alguém sorrindo para Pietra! Que coisa mais desusada! Enrubesceu e não disse mais nada, pudera, não saberia mesmo o que dizer.

Mas os outros sim, chamavam-na tonta, preguiçosa e perguntavam quando é que iria tomar jeito e continuavam sentados, esperando que desse por terminada a arrumação da mesa de Natal. Quando viram que não faltava mais nada, atiraram-se como lobos às iguarias, nem viram que Pietra se retirara, indo para a cozinha sentar-se. Seus pés doíam tanto e suas costas a estavam matando. Mas sabia que pouco tempo teria para descansar. Logo estariam chamando aos gritos para que levasse isso ou aquilo, ou que fosse limpar qualquer coisa que como de costume haviam derramado.

Ela deitou a cabeça sobre os braços apoiados na mesa. Fechou os olhos e suspirou profundamente. Ouviu um “Com permisso signorina?” Levantou-se num pulo. Era Alfonso que trazia em dois pratos pedaços de peru, dois copos de vinho, queijo e pão. Chegou e foi se sentando ao lado dela, muito sem cerimônia e sorrindo convidou: “Andiamo, cara mia!” E empurrando um prato para ela se pôs a comer com as mãos. A pobre acompanhou mais pelo inusitado que propriamente por fome.

Foi a primeira vez que passava a noite de Natal ao lado de alguém que conversava com ela de forma amigável. Conseguiu ficar a
ssim uns bons dez minutos antes do primeiro grito. E lá se foi Pietra, cuidar de servir mais massa aos familiares famintos.

Voltou para a cozinha carregada de pratos e travessas sujas e já encontrou Alfonso com as mãos mergulhadas na pia, lavando tudo que lhe passasse pela frente. Era fácil ficar ali, enxugando e guardando a louça e ouvindo-o falar. E como falava! Conseguia o milagre de fazê-la sorrir, mostrando as covinhas no rosto e luzes brilhando nos imensos olhos negros. Nem percebia como estava bonita! Não era uma beleza comum, conseguida à custa de belas roupas e acessórios, pois isso, não possuía. Esta beleza vinha de dentro e encontrando toda sua simplicidade irradiava-se. Alfonso estava pura e simplesmente apaixonado por aquela gata borralheira que com a graça de Deus conseguira descobrir já no final dos anos 90.

Toda vez que Pietra ia à sala de jantar atrás de mais louça suja, a cozinha ficava fria e desbotada. Mas assim que ela entrava, Alfonso sentia como que um sol chegava iluminando e aquecendo tudo. Gostaria que nunca mais ela saísse de perto dele. Estava sentindo emoções que pensava nunca mais sentir na vida. Era como se tivesse entrado num túnel do tempo e voltado repentinamente aos grandes dias de sua mocidade.

Pietra estava passando um café e depois de levar para a sala, deu a Alfonso uma xícara e sentou-se no banco da cozinha para descansar. Ele olhava para ela embevecido, pouco ouvira a voz de Pietra, já que ela se ocupava em prestar atenção ao que ele falava e sorrir ou dar de ombros como resposta. Era tímida, muito tímida, mas um encanto de criatura. Ele avisou que na tarde do dia seguinte, às dezoito horas viria fazer-lhe uma visita e gostaria de ser recebido. Só obteve como resposta um rosto corado que tomou imediatamente como consentimento.

Logo chegou a irmã de Alfonso, Domenica, para chamá-lo e foi logo dizendo que estava muito tarde e que os meninos já estavam dormindo no carro. Alfonso ainda conseguiu pegar nas mãos de Pietra e dizer bem baixinho um até amanhã. Ela ficou com o coração aos pulos, sentia-se leve, parecia que seu corpo não se cansara das trabalheiras do dia. Estava feliz por ter achado nesta vida alguém que lhe desse um pouco de atenção. Nem ouvia as famosas recomendações de cuidar melhor dos pais, e nem os avisos de que iria prestar conta de sua falta de atenção quando morresse. Qualquer coisa que dissessem por mais desagradável pareceria música aos seus ouvidos. Estava com um ligeiro sorriso permeando os lábios e nos ouvidos ainda tinha o tom e o som das palavras agradáveis dele. As primeiras palavras gentis que ouviu em seus quase quarenta anos de vida.

Quando o último se despediu, foi arrumar os pais na cama, trançar o cabelo da mãe, mudar as fraldas dos dois e ajeitar as cobertas. Ouvia os elogios que eles faziam aos filhos, genros, noras e netos. Todos eram cantados por eles em prosa e verso e para ela sobravam os resmungos, acharam um peru salgado e o outro sem sal. A massa, segundo eles, não estava “al dente” e uma infinidade de defeitinhos foram mencionados na ceia, nada do que ela havia feito conseguiu perfeição. Pietra sorria, pois se os temperos dos perus estavam ruins teriam de ir reclamar com a Sadia, pois as aves já chegaram temperadas. E a massa, foi cozida como de costume. Eles estranharam que Pietra respondesse às suas observações, já que estavam acostumados a desancá-la verbalmente e nada receberem como resposta.

Pietra foi colocar ordem na casa para que amanhecesse perfeita. Só a expectativa da visita prometida por Alfonso a enchia de alegria e de vigor. Parecia uma máquina de limpar e arrumar. Em pouco tempo estava tudo no lugar e reluzindo de limpo. Ouviu sua mãe chamando e foi verificar o que mais ela poderia querer, já que a água estava sobre o criado-mudo. Atendeu, colocou mais uma coberta sobre ela e voltou a seus afazeres. Quando foi dormir já passavam das três horas da manhã. Estava tão cansada que pareceu desmaiar sobre a cama. Não ouviu os pais chamarem, sonhou com Alfonso que chegava montado num cavalo branco.

Pobre Pietra, este tipo de herói já não existia mais, só que ela não sabia e continuou seu sonho com cavalo branco e tudo a que tinha direito. O sol conseguiu pela primeira vez acordá-la. Sentiu seu calor ao mesmo tempo em que ouvia uma voz lá longe chamando: “Pietra, Pietra!” Ela foi acordando devagar ao mesmo tempo em que conseguia identificar a voz zangada do pai.

Deu um pulo da cama e correu ao quarto dos velhos. Estavam irados, aos berros xingavam a filha. O velho balançando seu relógio de bolso, perguntava se aquilo eram horas de uma pilantra daquelas estar na cama? Será que aquela desalmada não sabia que eles estavam com fome? Já passava e muito das seis da manhã e onde é que estava o café? A filha comprovou que realmente já eram seis e sete da manhã. Estava com um atraso de sete minutos. Olhou para o pai e acordou, viu pela primeira vez o quanto era mesquinho e injusto.

Ela resolveu que aquilo precisava acabar. Já havia sido escravizada por um tempo enorme. Nunca se importou de cuidar deles, mas não iria mais aceitar aquele estado de coisas vinte e quatro horas por dia. Tudo tem um limite e o dela havia chegado. Achegou-se à cama, ao lado do pai e falou: “Chega! Chega, nem mais um pio! Chega! Hoje foi a última vez que o senhor me disse coisas desagradáveis. Chega! O senhor é pai de onze filhos, sou a caçula e o senhor me trata como escrava. Cansei! De hoje em diante se quiserem falar comigo, terão que me cuidar como filha. Terão que dar a mim o mesmo tratamento que dão a meus irmãos ou sairei desta casa. É preferível ir trabalhar de empregada doméstica em qualquer lugar, a ficar aqui, servindo de burro de carga para a família toda”.

O pai fez menção de falar e ela cortou: “Nem mais uma palavra meu pai, se o senhor falar ao menos que sou bonita, largo vocês aqui do jeito que estão, mijados e com fome. E seus outros filhos que venham cuidar dos dois. Calado! Hoje é minha vez de falar e a vez de vocês ouvirem. Vocês não têm consciência não? Será que não vêem o tanto que trabalho, o duro que dou para manter vocês dois vivos, saudáveis e confortáveis? Será que não passa pelo entendimento de vocês que os outros filhos só querem vir aqui em tempo de festa porque a casa é grande e esta escrava aqui faz o serviço todo para eles? Vocês nunca notaram que ninguém nunca se ofereceu para cuidar de vocês um dia sequer? Vocês já esqueceram as brigas na família todas as vezes que preciso sair para ir ao médico ou ao dentista, porque ninguém quer ficar com vocês?”

A mãe começou a chamar pela Madona e Pietra voltou a falar: “Calada, minha mãe, se a Madona tiver que atender alguém aqui este alguém sou eu. Eu, que vivo há tantos anos no borralho que até já me esqueci da conta. Eu, que não tive vida própria e nem direito a ter outra vida me querem dar. É a mim que ela com certeza virá ouvir e atender, porque a senhora não tem sido uma mãe para esta sua filha, como pode estar aí a pedir a ajuda da Madona?”

“Tenho servido os dois há tantos anos em troca de desaforos e maus tratos, tenho vivido uma vida miserável, sem ter nunca um pouco de alegria e nem uns momentos de felicidade. Todos os seus filhos têm suas casas e suas famílias e eu tenho o quê? Vocês, duas criaturas mesquinhas de quem tenho obrigação de cuidar e nada recebo por isso. Sou menos que uma empregada, pois nem a salário tenho direito. Só visto e calço restos, seja de quem for. Não me lembro de alguém ter me dado alguma coisa nova que não fosse um sabonete. Como também não me lembro de ouvir alguém agradecer pelo muito que faço para todos, cuidando das obrigações deles, pois todos são tão filhos quanto eu. Vou agora fazer o café e não quero ouvir mais um grito ou saio pela porta da frente e não dou meia volta. Não quero o c
arinho de vocês, pois nunca tive e por isso não sinto falta, mas quero respeito a partir de agora. Vou mudar minha vida hoje e vou começar agora mesmo, pois só ontem descobri que sou um ser humano e que tenho o direito de viver. O senhor, meu pai, pode pegar o telefone e começar a chamar seus filhos e avisar que não vou mais cuidar de vocês. Que eles coloquem uma enfermeira e uma empregada, porque vou arrumar um emprego onde receba um salário que dê para minhas necessidades que ninguém vê. Hoje mesmo já não faço o almoço, se quiserem almoçar, podem começar a ligar para seus dez filhos, porque a décima primeira fez greve de vez!”

Mal saiu do quarto, o pai começou a ligar, inicialmente para o mais velho e contou tudo que ela falou. Da cozinha Pietra ouvia e sorria da memória colossal do pai. Não esquecia de nenhum detalhe, que coisa! Enquanto terminava o café, a água para o banho ficou no ponto e foi para o quarto, iniciando o banho de sua mãe enquanto o pai continuava a ligar para os filhos. Falava com cautela, como se temesse ter que repetir o que a filha dissera e ela subisse nos cascos outra vez. A mãe nunca ficara tão quieta durante um banho. Parecia um milagre, não reclamou da temperatura da água que mesmo sendo a mesma todo dia, sempre achava que estava fria ou quente demais.

Quando Pietra passou para o lado do pai, para banhá-lo, ele deu o telefone à mãe que continuou a desfiar o rosário de reclamações que a filha havia feito. Terminado o banho serviu o café e eles continuavam ao telefone. Saiu fechando a porta e foi arrumar-se, pois iria sair em busca de emprego assim que o primeiro irmão ou irmã chegasse. Não deixaria os pais a sós, mas iria passar a responsabilidade para o mais afoito entre eles.

Ainda estava prendendo o cabelo quando a campainha tocou, foi abrir com a bolsa na mão, onde estava também um segundo jogo de chaves da casa. Assim que abriu a porta, entrou Ferdinando, o mais velho, e foi perguntando com grosseria que história era aquela. Ela disse apenas: “Essa!” E colocou na mão dele uma cópia das chaves da casa, deixando-o estático, vendo que a irmã se encaminhava para o ponto de ônibus.

Parecia que o céu tinha vindo abaixo dentro daquela casa da rua Comendador Lírio do Prado. Estavam todos juntos, filhos, filhas, genros, noras e netos. Era a primeira vez que se reuniam e não tinham Pietra por perto para fazer merendas, lavar louça, dar banho nos meninos que se sujavam e eles estavam estranhando. Estranhavam mais ainda era o mau cheiro dos velhos, que haviam defecado e ninguém estava muito animado a limpar. Estavam enlouquecendo e não se passara ainda nem meio-dia. Quando não houve mais jeito de protelar, os homens carregaram o velho, colocaram-no numa cadeira de jardim e deram-lhe um banho com a mangueira. O pobre gritava como nunca se ouviu. E a sujeira ficou lá, no meio da garagem e os meninos correndo pisando, escorregando e se sujando.

A mulher, não teve melhor sorte. Foi colocada na banheira pelos homens, mas duas filhas é que deram o banho, com a água do chuveiro que não temperaram direito e quase solta o couro da pobre. Ficaram os dois mal enxutos e ninguém se lembrou de colocar talco e lavanda. As fraldas estavam apertadas demais e numa posição incômoda. O coitado do pai teve o azar de urinar assim que foi trocado e o filho passou uma descompostura nele, que se lembrou de Pietra que sorria com carinho e trocava novamente a fralda quando isso acontecia.

Os filhos envolvidos na luta do banho estavam esfalfados. Os pais estavam estressados. Um enregelado e o outro suando pelo banho muito quente. Todos já estavam com saudades de Pietra, e as consciências começaram a despertar. Claro que primeiro a xingaram o quanto puderam, mas a pia cheia de vasilhas, a casa toda desarrumada e os pais que tornaram a se molhar e colocaram mil defeitos na comida que conseguiram a custo servir, mostravam que realmente havia alguma coisa errada.

Ligaram para algumas agências de empregados domésticos e viram que não seria nada fácil arrumar alguém que fizesse sozinho o serviço todo que Pietra sempre fizera sem reclamar. Encontraram algumas enfermeiras que poderiam ajudar, mas nenhuma que ficasse em tempo integral e não encontraram alguém que quisesse pelo menos conversar quando diziam que pagariam o salário mínimo. Aquilo era serviço especializado, foi o que as empresas disseram. Teriam que oferecer remunerações melhores e algumas vantagens.

Viram logo que ficaria caríssimo o simples fato de concuidar uma empregada que exigia folga pelo menos uma vez por semana e a a ajuda de uma faxineira, mais duas enfermeiras no mínimo e principalmente a novidade das fraldas descartáveis já que ninguém nem pensava em lavar as montanhas de fraldas que Pietra sempre costurou, lavou e passou sem reclamar. Que fazer com o jardim e o quintal dos fundos, onde eram plantadas as hortaliças, que forneciam para a família toda os vegetais sem agrotóxicos?

E os dias em que a empregada estivesse de folga? Quem iria fazer a comida e limpar a casa? E nas folgas das enfermeiras, quem iria tomar conta dos pais? A situação estava difícil, muito difícil. O dia já estava quase acabando e ninguém conseguiu resolver nada. Os pais estavam reclamando do calor, que todos os dias tomavam dois banhos, o que é que os filhos estavam esperando para dar o segundo banho do dia? Mas ninguém se animava a começar de novo aquele rebuliço todo. Mandaram que tivessem paciência, que banho só no outro dia. O diabo é que eles estavam com um cheiro desagradável, um misto de urina, suor e ranço de comida nas roupas.

O mau cheiro ou a comida estranha ou o desconforto ou quem sabe se não foi a soma de tudo isso fez desandar o estômago e o intestino do pai. Foi um horror, a cama toda vomitada, a mãe cheia de vômito gritava como uma possessa. O jeito foi enfrentar a maratona do banho para os dois. O pai dizia que banho frio não, a mãe dizia que banho quente não. Foi o cão chupando manga, aquela situação.

Pouco depois das dezessete e trinta, Pietra chegou. Calma, era a serenidade em pessoa. Entrou, cumprimentou a todos, que mostravam um desalinho nunca visto.Serenamente foi para seu quarto. Logo ouviram o barulho do chuveiro e ficaram confabulando lá na sala, sobre o que iriam dizer a ela. Uns queriam a pele dela, outros queriam apenas o compromisso firme de voltar a cuidar dos pais como de costume e sem reclamar, já que cada um veio para esta vida com seu destino traçado.

Assim que ela saiu do banho, viram que estava com uma das roupas que usava para ir ao médico ou ao dentista. Eram tão poucas que eles as conheciam todas. Ela passou por eles e quando pensaram que iria sentar-se tomou o rumo da rua. Mal deu tempo de verem um carro parar, a ex-escrava entrar e sumir de vista.

Ficaram atônitos! E agora? Que diabos iriam fazer com os pais, a mãe já estava lá aos berros, chamando a cada hora o nome de um deles. Começou um jogo de empurra, cada um transferindo para o outro a vez de atender aos velhos. Ninguém queria saber, estavam mortos de cansaço, de nojo, de vontade de sumir dali. Mas ninguém liberava ninguém, todo mundo dizia que o outro que queria cair fora era filho também e tinha obrigação de ficar!

Enquanto isso, Alfonso tinha parado o carro numa agradável casa de chá, daquelas que quase não se acha mais. Ali, naquela tranqüilidade Pietra pode responder às perguntas dele, que estranhou o fato dela sair de casa e entrar em seu carro, assim, sem mais nem menos. Ela disse que da janela de seu quarto viu quando ele chegava e atravessou a sala rapidamente para ir a seu encontro. Que sentia muito, nunca tinha entrado num carro que não fosse de um irmão ou irmã. Que aquele não era seu hábito, como também não tinha costume de sair com um homem. Mas que aquele era um dia especial, muito especial.
Alfonso estava
assombrado, esperava ver uma mulher calada, quieta em sua casa, servindo talvez um copo de vinho ou um cafezinho. E repentinamente depara-se com uma Pietra desenvolta, que o olha de frente, mesmo enrubescendo de vez em quando, mas bastante diferente daquela da noite anterior. Não que não estivesse de seu agrado, ao contrário. Estava surpreso, nada mais.

Ela resolveu esclarecer e disse o que ele mesmo viu na noite de Natal, seus trabalhos, seus sufocos, a desatenção de sua família. A grosseria de seus pais e irmãos ficou bem patente. Mas mesmo assim deixou-a falar. Era agradável ouvi-la e gostava de vê-la enrubescer e tropeçar nas palavras quando a olhava bem dentro dos olhos.

Ficou abismado de ter contribuído para o que ela chamou de "seu dia de independência”. Mas sentia-se lisonjeado pela gratidão que demonstrava pelo simples fato de tê-la cuidado bem, com a delicadeza própria de um homem frente a uma mulher que o interessa.

Alfonso não imaginava que a vida de Pietra fosse assim, sabia que não parecia ser fácil, mas nunca pensou que fosse tão “escravizante”. A irmã dele era casada com um irmão dela, e vivia muito bem. Tinha empregadas que faziam todo serviço mais pesado. Por que a ela tocou aquela vida tão difícil? Por que os irmãos não lhe davam um sugestão mais humano? Ele se revoltava mais e mais. Pegou entre as suas as mãozinhas dela e sentiu-as ásperas, o que mostrava como sua lida era dura. Olhando-o há algum tempo ela havia calado vendo-o tão pensativo.

O olhar suave dela o trouxe de volta à realidade e perguntou o que fez fora de casa o dia inteiro e sorriu quando a ouviu dizer toda orgulhosa que foi em busca de emprego. E o mais importante é que achou. Estava empregada numa cantina, na rua Joyce de Carvalho Rocha, lá nos Jardins. Seria a responsável pela cozinha, não a cozinheira, mas a responsável pela compra dos gêneros alimentícios, pelo estoque e pela qualidade da comida. Disse muito orgulhosa que seria a gerente, estaria no lugar do dono que tinha outra cantina lá para os lados da Rua 14 de Julho.

Alfonso perguntou como é que conseguiu se não tinha experiência. E ela disse que o dono é italiano e que queria alguém que fosse italiano ou descendente e que principalmente conhecesse a cozinha típica da Itália e mais, que soubesse comprar alimentos em excelente estado, e como conservá-los. Não era preciso saber gerenciar, mas que fosse capaz de obedecer, para aprender a trabalhar do jeito que o dono da cantina queria.

Ele descobriu que estava com uma pontinha de ciúmes, não estava gostando nada dela ir trabalhar fora! Mas o que poderia fazer? Ele a conhecia a mais ou menos de vinte e quatro horas e interferira demais em sua vida, mesmo sem saber é claro, mas interferira. Mas também estava gostando daquele ar confiante que via desabrochar no rosto dela, fazia-a mais bonita ainda. O que poderia fazer era esperar para ver por quais caminhos o estava levando o coração.

Pietra contava tudo nos mínimos detalhes, como era a Cantina Del Fiore, quanto iria ganhar, e principalmente do medo que estava sentindo de desapontar o dono que estava confiando nela. Aquela ansiedade fazia com que seus olhos brilhassem, seu rosto se afogueasse e sua voz mostrasse a alegria que lhe estava enchendo a alma. Veja só, nunca saiu em busca de coisa alguma e no dia em que resolve ir, os céus parecem achar que merece uma recompensa por tudo que tem sofrido. Alfonso se enternece, e sorrindo diz que permitirá que trabalhe fora, enquanto eles estiverem apenas namorando, para se conhecerem melhor.

O coração dela parece que vai estourar. Assim de uma hora para outra Alfonso diz que eles estão namorando! Nunca namorou e diz isso a ele, que sorri e responde maliciosamente que é bom professor e que ela aprenderá logo. É o suficiente para deixá-la vermelha e ele se sentir deliciado. Terminam de tomar o chá e voltam para a casa dela, marcando um encontro para todos os outros dias. Ela sorri e dá o endereço da cantina, de onde sairá sempre às dezoito horas.

Quando Pietra entra em casa, encontra apenas os irmãos e irmãs. Os cunhados e cunhadas já saíram levando os filhos. A casa está uma bagunça. São quase vinte e uma horas e os pais estão agitados. Uma de suas irmãs está às voltas com o chá para eles, outra cuida da mãe que foi transferida de quarto e o pai está gritando que nunca dormiu separado de sua mulher, que isso não se faz. Mas as irmãs ficam constrangidas de trocarem a mãe na frente do pai e não têm coragem de ver o pai nu. A caçula, agora em greve, nunca sentiu constrangimento algum, simplesmente fazia o que deveria ser feito.

Está um caos aquela casa que Pietra deixou limpa e organizada, dá para ver a bagunça por todo lado. Vai para a cozinha e serve-se pela primeira vez de chá feito por uma de suas irmãs. Senta-se no banco e fica tomando calmamente, como se isto fosse seu único propósito na vida. Aquele foi um dia muito bom, sim senhor, bom mesmo! Os irmãos vão se achegando e começa o interrogatório. Ela diz rispidamente que se calem. E avisa que vai dormir, porque no dia seguinte, bem cedo, começará a trabalhar como gerente de uma cantina.

Assim que ela sai da cozinha eles se entreolham e ficam confusos sem saber o que dizer. O mais velho se enche de coragem e vai bater na porta do quarto dela e diz que precisam conversar. Pietra abre a porta e diz: “Nós precisamos conversar? Por quê? Vocês nunca se preocuparam em conversar comigo, meus sentimentos e necessidades nunca foram percebidos por vocês. E agora querem conversar! Sobre o quê? O que é que vocês têm a dizer que seja do meu interesse?”

Marcello, o segundo dos filhos, achegou-se e começou a falar que ela precisava cuidar dos pais, que ficou acertado que seria a responsável e… Não disse mais nada. Pietra olhou para ele com toda a ira do mundo e retrucou: “Eu tenho que cuidar deles por quê? São apenas meus pais? Sou a única aqui que é filha deles? E vocês saíram de onde? São filhos de algum oco de pau? E quem determinou que eu ficaria com a responsabilidade de cuidar deles? Não foram vocês? Eu só tinha treze anos quando fizeram de mim uma escrava, sem direito a nem ao menos respirar. Tudo que vocês sempre me deram foram os restos porque de novo só mais e mais serviço. Chega de responsabilidade minha sobre eles. Agora é de vocês, chegou a vez de meus dez irmãozinhos cuidarem do papai e da mamãe que são deles também. Eu fiz muito mais do que seria minha cota nesta e em outra vida se houvesse.”

A grevista fechou a porta e foi dormir como se todo o peso do mundo tivesse sido retirado de seus ombros. Não ouviu sua mãe chamar por Marcello, nem por Ingrácia, nem por Bella e muito menos por Francesco. Dormiu o sono dos justos e levantou-se lépida pouco depois das cinco. Arrumou-se e foi enfrentar seu primeiro dia de trabalho.

Para quem estava acostumada a espichar o dinheiro magro que seus irmãos davam para a feira, foi fácil fazer as compras da cantina. Tinha prática em comprar os produtos que estavam no auge da safra e no mínimo dos preços. Saiu-se tão bem que o patrão disse que ali nada havia a ensinar e sim a aprender. Como é que ela conseguia vencer os verdureiros na queda de braço e baixar os preços assim? E como conseguia comprar a carne tão limpa, sem os famosos contrapesos que ele não conseguia evitar? De vez em quando ela dava um grito num e desancava outro. No final saía distribuindo sorrisos e todos se davam por felizes e satisfeitos por mais aquela boa freguesa!

Acondicionar as compras foi mais fácil ainda. Ela mesma não sabia que conhecia tanta coisa, tantos detalhes. Estava tão surpresa quanto seu patrão que ainda não tinha conseguido ensinar nada àquela pessoinha tão sem experiência, que nem ao menos carteira de trabalho possuía. Ficou vendo como ela exigia o serviço bem feito.
Não pedia, mas dizia com determinação: “Faça assim, é assim que deve ser feito, é assim que eu quero.” E todos obedeciam. Ela não estava ali para brincar e isso ficou logo demonstrado, quando disse a um funcionário meio folgado que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Foi água na fervura, o resto do expediente passou sem nem ao menos uma tentativa de gracinha. Dona Pietra mandando e todos obedecendo e fazendo bem feito, como era exigido.

Quando menos esperava o expediente acabou. Imagine só, nem parecia que havia trabalhado um dia inteiro! Não estava cansada, se estivesse em casa, naquela hora seus pés estariam doendo, suas costas matando e ali, na Cantina Del Fiore, parecia que tinha ficado descansando. Mas via pela vidraça que Alfonso estava chegando, eram horas de ir aprender a namorar. O que encontraria em casa depois das aulas de namoro não a preocupava mais. Nada do que dissessem poderia ser mais duro ou cruel do que as frases grosseiras com que a brindaram a vida inteira. E agora já não era mais tempo de baixar a cabeça e ouvir calada. Agora era tempo de aprender a namorar e de exigir seus direitos a uma vida plena, feliz, como qualquer ser humano que se preze. Saiu tão satisfeita, que parecia sair do céu para o paraíso ou seria o contrário?
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Malva Gomes dos Santos – Escritora radicada em Aracaju/SE tem trabalhos premiados e participa de várias antologias no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em Salvador, na Bahia. É Membro Efetivo do Grupo Cultural Pórtico. Livro publicado: Vamos pro mundo? E livro editado pela Editora Ripress: Eu, o Magistrado! Tem textos publicados na Notívaga e em vários outros sites.

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