Publicado em

Achado Não é Roubado

Luzia era uma preguiçosa de primeira. Venceria qualquer campeonato que existisse no mercado. Não queria levantar uma palha. Tudo que queria fazer na vida era sonhar. Sonhar em um dia ficar rica, muito rica, mas só fazia sonhar, a preguiça era tanta que a impedia de ir até a Casa Lotérica da esquina e fazer uma "fezinha".

Existia uma coisa da qual Luzia gostava e sentia prazer em fazer, era passear num campo próximo à sua casa. Sentia uma atração incrível pelo lugar. Era onde se refugiava das inúmeras brigas com o marido. Deixava o coitado desatinado, babando lá na casa, e saia pelo campo. Sonhando com um outro tempo, um outro corpo, uma outra vida.

Era muito mais fácil sonhar ser outra pessoa, que mudar os fatos diários. Sua preguiça lhe trazia um mundo de aborrecimentos, ninguém entendia que ela não foi feita para lavar, passar e cozinhar. Arrumar a casa então nem se fala. Era a última coisa que desejaria fazer na vida.

E numa certa terça feira, assim que acordou, já ouviu uma bronca. O marido queria tomar café antes de ir para o trabalho, mas Luzia havia esquecido de comprar o pó. Ele saiu chispando e ela já que estava acordada, foi passear. Saiu com uma sacola, para que depois do passeio no campo, chegasse até o armazém onde compraria algumas coisas.

Saiu e foi sempre em frente, passeando e ruminando seus pensamentos. Gostava de dar asas à imaginação e de se ver em situações complexas, divertidas, bem diferentes da mesmice em que vivia mergulhada. Imaginava o que faria se um dia encontrasse assim, sem mais nem menos, uma fabulosa quantia em dinheiro.

Ficava pensando que ali naquele meio de mato, bem que um traficante, fugindo da quadrilha, poderia perder uma boa bolada. E se ela achasse, não teria remorso algum em ficar com ela. Teria se fosse dinheiro honesto, que era preciso devolver. Mas dinheiro daqueles traficantes imundos, que viviam num morro bem perto dali? Não devolveria mesmo! Nunquinha!

E assim seguia a preguiçosa Luzia, sonhando com sua fortuna recém encontrada, quando se depara com um homem, deitado de bruços no chão enlameado. Luzia vê que ele está morto e bem morto. Uma poça de sangue se havia formado por baixo daquele corpo, de olhos abertos e paralisados pela morte.

Ela nota a maleta na mão esquerda semi-aberta do homem, não dá trabalho algum se abaixar e apanhar. Luzia olha para um lado e para outro. Ninguém. Não há testemunhas daquele seu movimento rápido de colocar a maleta dentro da enorme sacola de feira que tem nas mãos.

Ela olha para trás e vê as marcas de seus passos, sendo apagadas pela chuva que resolveu cair e encharcar o mundo. Aproveita e volta para casa e por precaução, pisando no capim para não deixar marcas. Sente-se como uma heroína, uma espiã dos filmes de James Bond. Apressa o passo em sentido contrário à sua casa e ao corpo. Dá uma grande volta e entra pelos fundos no conjunto habitacional onde mora. Passa no armazém e compra o café, o pão, o leite e mais algumas coisinhas, com que cobrir a maleta no fundo da sacola.

Segue para casa. Vai sonhando com o que deve ter de dinheiro na maleta. Quanto será? Pergunta-se Luzia. Quem sabe se não terá bem uns quinhentos mil? Talvez um milhão ou dois? Começa a pensar que não sabe o volume que um milhão ou dois podem formar.

Coitada, nunca viu nem mesmo três notas de cem reais de uma só vez, quanto mais dois milhões. Não pode mesmo imaginar o espaço que eles ocupariam. Chega em casa e verifica que o filho foi para a escola. Vê as cascas de banana sobre a pia, para que ela jogue no lixo, bem ali debaixo da pia. Mas Luzia sabe que na verdade, o que o filho quis dizer, foi que só tinha banana para comer e ir para a escola. Era um jeito de mostrar que a mãe como despenseira era um zero à esquerda.

Luzia deixa as compras em cima da mesa da cozinha e vai para o quarto. A maleta está trancada. E é uma mulher ligeira que vai até o depósito de breguetes, lá nos fundos da casa. Foi buscar ferramentas que nunca usou na vida. Mas num instante o martelo e a talhadeira entram em ação. É um tal de tim, tim, tim, que invade a casa, enquanto ela tenta se acalmar. Finalmente arromba a fechadura da maleta. O coração está aos pulos, a imaginação voa. Quanto será que tem? Quanto será?

Finalmente aberta a valise, Luzia vê um pacote amarrado com papel pardo e barbante. Parece pouco dinheiro, o volume não é maior que um tijolo pensa Luzia. Pega o embrulho e abre. A desilusão invade seu rosto. Ela segura nas mãos uma marmita aberta, onde se vê o ovo frito em cima de um pouco de feijão com farinha. E mais nada, nem mesmo uma moedinha…

_____________________________

Malva Gomes dos Santos – Escritora radicada em Aracaju/SE tem trabalhos premiados e participa de várias antologias no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e em Salvador, na Bahia. É Membro Efetivo do Grupo Cultural Pórtico. Livro publicado: Vamos pro mundo? E livro editado pela Editora Ripress: Eu, o Magistrado! Tem textos publicados na Notívaga e em vários outros sites.

 

Atenção: Qualquer produto citado neste post não é um medicamento e não substitui o tratamento médico. Terapias citadas neste post não substituem a visita ao seu médico regularmente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *